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O que é wafuu kei (和風系), subgênero do Visual Kei?

Olá, apreciadores da música japonesa! Você já ouviu falar sobre o estilo wafuu kei e seus principais representantes? Bandas classificadas como wafuu kei pertencem ao universo do visual kei, mas se destacam por manterem de forma consistente um conceito visual e musical inspirado no Japão tradicional, incorporando elementos culturais, estéticos e sonoros característicos de épocas passadas.

É importante observar que essas referências ao Japão antigo são comuns entre diversos artistas japoneses, e muitas bandas podem adotar esse estilo em um ou dois lançamentos específicos. No entanto, para que um grupo seja reconhecido como uma banda wafuu kei, é necessário que esse conceito seja mantido de maneira predominante ao longo de sua trajetória artística, não apenas em fases pontuais.

O Kagrra foi um dos primeiros exemplos de wafuu kei. Cada lançamento trazia inspirações do Japão antigo em letras, melodias e instrumentos, e seu visual sempre incorporava elementos da mesma época.
O Kagrra, foi um dos primeiros exemplos de wafuu kei. Cada lançamento trazia inspirações do Japão antigo em letras, melodias e instrumentos, e seu visual sempre incorporava elementos da mesma época.

Uma breve história do wafuu kei

A banda VIRUSHANA (美流沙女) é frequentemente reconhecida como o primeiro grupo a ser classificado como wafuu kei. Fundada em 1995, iniciou sua trajetória como uma banda relativamente típica dentro do cenário visual kei. No entanto, em 1999, seu visual passou por uma transformação significativa.

Segundo relatos amplamente difundidos, essa mudança curiosa teve origem em uma situação inusitada: o vocalista Misuzu (美鈴) teria começado a utilizar quimonos no palco por conta de um parente que os vendia a preços acessíveis. O que inicialmente foi uma escolha prática acabou por se tornar a marca registrada do grupo. A estética inspirada no Japão tradicional passou, então, a ocupar um papel central em sua identidade visual, consolidando a imagem da banda como precursora do wafuu kei, ainda que sua sonoridade tenha permanecido relativamente inalterada ao longo do tempo.

MV de VIRUSHANA (美流沙女). A música em si não possui a instrumentação e as melodias clássicas que se tornariam padrão no subgênero, mas os figurinos e cenários do MV claramente remetem à época.

Também por volta de 1999, diversas bandas com estética semelhante começaram a surgir em diferentes regiões do Japão, consolidando os primeiros passos do wafuu kei como subgênero visual. Entre esses grupos destacam-se CROW, Tsuki NO Kakera (月ノ破片), Oiran (花魁), entre outros. A primeira, CROW, merece atenção especial: após assinarem com a gravadora PS COMPANY e alterarem seu nome para Kagrra, em 2000, o grupo se tornaria a banda de wafuu kei mais amplamente reconhecida e influente dentro do movimento.

Ao final de 2001, o Kagrra, já havia realizado duas turnês solo de grande alcance, consolidando sua posição no cenário nacional. Seus predecessores, o VIRUSHANA (美流沙女), também haviam completado uma turnê solo, embora de menor escala. Esses feitos, ao que tudo indica, contribuíram para o fortalecimento e a popularização do estilo. Como reflexo desse sucesso, diversas novas bandas wafuu kei foram formadas nesse período, marcando o início do que é frequentemente chamado de “primeira onda” do movimento.

As bandas dessa geração inicial costumavam adotar vestimentas tradicionais japonesas quase exclusivamente, como por exemplo os quimonos ou yukatas, e incorporavam em seus trabalhos musicais distintos níveis de influência da música clássica japonesa, seja nos arranjos instrumentais, seja nas melodias ou na utilização de instrumentos tradicionais.

Kochou (胡蝶) em 2002
Kochou (胡蝶) em 2002. Uma das bandas de wafuu kei da primeira onda, demonstrando a mesma adesão ao estilo clássico japonês que as bandas VIRUSHANA e Kagrra.

Essa primeira onda do wafuu kei também testemunhou o surgimento de um número bastante restrito de bandas que, em vez de se inspirarem no Japão tradicional, passaram a fazer referência à cultura chinesa antiga. Entre os poucos exemplos conhecidos, destacam-se long-shang (龍扇 long-shang), KARMA=SHENJING e P∞L. Essas bandas adotaram elementos visuais e conceituais associados à estética da China imperial, diferenciando-se das propostas centradas na cultura japonesa.

Nota importante: Bandas que mantêm uma identidade artística continuamente inspirada na cultura chinesa (ou em outras culturas asiáticas não japonesas) devem, tecnicamente, ser classificadas como Asia kei (アジア系), uma designação que abrange influências culturais oriundas de diferentes países asiáticos. No entanto, esse tipo de abordagem é extremamente raro no cenário musical japonês, e tais grupos são tão poucos que, geralmente, não chegam a ser reconhecidos como pertencentes a um subgênero próprio dentro do visual kei.

Infelizmente, a trajetória do VIRUSHANA (美流沙女) foi interrompida de forma abrupta em 2002, devido a problemas internos que não foram amplamente divulgados. A banda encerrou suas atividades de maneira extraoficial no ano seguinte, marcando o fim de um ciclo importante para o wafuu kei.

Em contrapartida, o Kagrra, continuou a crescer e consolidar seu nome no cenário musical japonês. Em 2004, o grupo fez sua estreia em uma grande gravadora (major debut) e, ao longo da segunda metade da década de 2000, passou a figurar com regularidade nas paradas da Oricon, um dos principais indicadores de sucesso da indústria fonográfica no Japão. Esse reconhecimento impulsionou não apenas a carreira da banda, mas também o interesse por esse estilo visual e conceitual inspirado no Japão tradicional.

Como resultado, uma nova geração de bandas wafuu kei emergiu nos anos seguintes, dando continuidade ao legado iniciado por VIRUSHANA e expandido por Kagrra,. Entre os nomes mais representativos dessa segunda onda destacam-se OTO-ONI (音鬼), Hannya (般若), STELLA…, Kiryu (己龍), entre outras. Cada uma dessas bandas trouxe sua própria interpretação da estética tradicional japonesa, contribuindo para a diversificação e o fortalecimento do subgênero dentro do visual kei.

A chamada segunda onda de bandas wafuu kei apresentou diferenças marcantes em relação à geração anterior, sobretudo pela forma como integraram elementos da estética tradicional japonesa a outros subgêneros dentro do visual kei. Em vez de adotar exclusivamente vestimentas tradicionais como quimonos ou yukatas, essas bandas passaram a incorporar aspectos visuais e conceituais do wafuu kei a estilos musicais mais diversos.

Por exemplo, o OTO-ONI (音鬼) fundiu o wafuu kei com as sonoridades pesadas e agressivas do loud kei (ラウド系); já o Kiryu (己龍) combinou a estética tradicional com as características do kote kei (コテ系), um estilo marcado por melodias densas e atmosferas sombrias. Outras bandas também seguiram caminhos híbridos: IRODORI aliou-se ao koteosa (コテオサ). uma vertente mais suave e emocional do kote kei, enquanto reirei (麗麗-reirei-) adotou influências do cosplay kei (コスプレ系), apostando em figurinos elaborados e teatrais. Apesar das diferenças sonoras e visuais, todas essas bandas permaneceram identificáveis como parte do universo wafuu kei, ainda que distantes da abordagem mais tradicional centrada exclusivamente em quimonos.

Entre os grupos dessa nova geração, uma banda se destacou de forma notável em âmbito nacional: o Kiryu (己龍). Recrutados pela gravadora B.P.RECORDS em 2009, os membros do Kiryu alcançaram um crescimento constante ao longo dos anos seguintes. Em 2015, o grupo obteve uma sequência impressionante de singles que conquistaram o primeiro lugar na parada indie da Oricon, consolidando sua posição como uma das principais forças do visual kei contemporâneo.

O sucesso do Kiryu culminou em um feito notável: ao final da década de 2010, a banda realizou diversas apresentações no Nippon Budokan (日本武道館), um dos palcos mais prestigiados do Japão. Vale destacar que se apresentar nesse local, mesmo uma única vez, é considerado um marco inatingível para a maioria das bandas do gênero, o que torna a façanha do Kiryu ainda mais significativa no contexto do wafuu kei e do visual kei como um todo.

Infelizmente, a trajetória do Kagrra, também chegou a um fim melancólico. Em 2010, a banda retornou ao cenário independente (indie), encerrando seu contrato com a gravadora major. Pouco tempo depois, anunciou sua separação oficial, marcada por um último show do tipo oneman realizado em 2011, no tradicional Shibuya Koukaidou (渋谷公会堂), um palco simbólico para muitos artistas japoneses.

Logo após o fim das atividades do Kagrra,, o vocalista Isshi lançou um novo projeto solo intitulado shiki∞project, no qual buscava dar continuidade à estética e aos ideais artísticos que sempre nortearam sua carreira. No entanto, essa nova fase foi tragicamente interrompida: Isshi faleceu de forma repentina em julho de 2011. Sua morte abalou profundamente a comunidade de fãs e músicos ligados ao wafuu kei, marcando o fim de uma era para muitos que acompanharam o crescimento do estilo desde os anos 2000.

O sucesso consolidado do Kiryu (己龍) durante a década de 2010 serviu como uma forte fonte de inspiração para o surgimento de um número ainda maior de bandas dedicadas ao wafuu kei. Esse movimento renovado contribuiu para a diversificação e o fortalecimento do subgênero dentro da cena visual kei, atraindo novos artistas que buscaram explorar a riqueza da estética tradicional japonesa combinada com sonoridades contemporâneas.

Na primeira metade da década, destacaram-se grupos como Memento-Mori, SUZAKU (朱) e ZIN, que mantiveram viva a tradição do wafuu kei por meio de composições que mesclavam elementos clássicos a influências modernas, preservando a identidade do gênero enquanto ampliavam sua expressividade. Já na segunda metade da década, a tendência se intensificou com a emergência de novas bandas como ARQUEMI. (アルケミ), -Shintenchikaibyaku Shuudan- ZIGZAG (-真天地開闢集団-ジグザグ) e Yusai, entre outras, que expandiram ainda mais as fronteiras do estilo, incorporando inovações visuais e musicais que dialogavam com o público contemporâneo.

Dentre essas formações recentes, -Shintenchikaibyaku Shuudan- ZIGZAG merece atenção especial. Fundada em 2016, a banda inicialmente se posicionou como um projeto que combinava a estética wafuu kei com elementos de paródia, adotando uma postura performática que mesclava tradição e humor de maneira singular. Contudo, a partir de 2020, o grupo passou por uma significativa transformação artística e estratégica, alterando seu estilo musical para uma abordagem mais acessível e contemporânea, o que contribuiu para uma explosão de sua popularidade.

Além disso, o sucesso do ZIGZAG foi amplificado por uma série de campanhas cuidadosamente planejadas e executadas nas redes sociais, que ampliaram seu alcance e fortaleceram a conexão com fãs novos e antigos. Outro fator relevante para sua ascensão foi a divulgação de que seu vocalista havia ingressado no renomado grupo de J-pop WANDS, fato que gerou grande repercussão e atraiu a atenção de um público ainda mais amplo, além do tradicional nicho do visual kei.

Essa combinação de inovação musical, marketing eficaz e conexões estratégicas consolidou o -Shintenchikaibyaku Shuudan- ZIGZAG como uma das forças mais significativas e influentes dentro da segunda geração do wafuu kei, demonstrando a vitalidade e a capacidade de renovação desse subgênero, mesmo após mais de vinte anos de existência.

Desde então, o surgimento de novas bandas dentro do wafuu kei tem ocorrido de forma mais esparsa e menos concentrada, sem que se tenha registrado uma onda tão expressiva quanto as que marcaram as décadas anteriores. O próprio Kiryu (己龍), uma das principais referências do subgênero, encerrou suas atividades em 2023, encerrando assim um ciclo significativo para a cena wafuu kei. Por sua vez, o -Shintenchikaibyaku Shuudan- ZIGZAG (-真天地開闢集団-ジグザグ) alcançou um nível de popularidade tão expressivo que hoje se apresenta majoritariamente fora dos circuitos tradicionais do visual kei, embora os próprios integrantes continuem a se identificar como parte desse movimento.

Apesar dessa dispersão e das mudanças no panorama musical, a relevância dos temas associados ao wafuu kei , sobretudo sua conexão com a cultura e a estética do Japão antigo, mantém-se sólida. Considerando a valorização contínua desses elementos na cultura popular japonesa, é pouco provável que o subgênero desapareça por completo. Pelo contrário, é razoável supor que o wafuu kei continuará a existir, ainda que de maneira menos proeminente, adaptando-se às transformações do mercado musical e às novas tendências, preservando assim sua identidade e influência cultural.

Por que é chamado de wafuu kei?

Wa (和) foi um antigo nome utilizado para designar o Japão, empregado até o século VIII, período no qual o termo Nippon (日本) tornou-se a denominação oficial e predominante para o país. O sufixo fū (風), por sua vez, significa “no estilo de” ou “à maneira de”, sendo amplamente utilizado para indicar uma característica estilística ou cultural associada a determinado contexto.

Dessa forma, o termo wafū (和風) pode ser traduzido literalmente como “no estilo japonês [antigo]” ou “à maneira tradicional do Japão”. Esta expressão é aplicada para descrever qualquer elemento cultural que seja distintamente representativo do Japão daquele período inicial, abrangendo aspectos diversos como vestuário, arquitetura, gastronomia, entretenimento e outras manifestações artísticas que refletem a identidade tradicional japonesa.

Quando aplicado ao contexto musical e estético, wafū kei (和風系) significa, portanto, “estilo japonês antigo” ou “estilo baseado nas tradições japonesas”. No âmbito do visual kei, esta designação caracteriza artistas e bandas que adotam temas, visuais e sonoridades inspirados na cultura e estética do Japão clássico, distinguindo-se por enfatizar elementos históricos e culturais que remetem às origens e tradições nipônicas.

Como é o wafuu kei, visualmente falando?

Rurunone em julho de 2023
Rurunone em julho de 2023

As bandas de wafuu kei da primeira onda são facilmente reconhecíveis devido ao uso quase exclusivo de variações tradicionais de quimono e yukata em seus trajes. Esse vestuário, profundamente enraizado na cultura japonesa clássica, confere a essas bandas uma identidade visual imediatamente associada ao Japão antigo e às suas tradições estéticas.

Por outro lado, as bandas de wafuu kei da segunda onda apresentam uma abordagem mais híbrida em relação ao vestuário. Embora seus trajes possam se assemelhar aos de outros subgêneros do visual kei, esses grupos incorporam fortemente tecidos clássicos japoneses e padrões tradicionais conhecidos como wagara, mesclando o contemporâneo com o histórico de forma harmoniosa e inovadora.

Kagrra, no Anime Friends, em São Paulo
Kagrra, no Anime Friends, em São Paulo | © JaME Brasil

É importante destacar que o uso esporádico de yukata ou elementos tradicionais não é suficiente para classificar uma banda como wafuu kei. A estética wafuu é um recurso tão recorrente e comum na cena musical japonesa que muitas bandas acabam adotando esses elementos visualmente em algum momento de sua carreira. Para que uma banda seja considerada genuinamente wafuu kei, é imprescindível que este estilo tradicional e japonês seja predominante em suas atividades e apresentações ao longo da maior parte do tempo.

Além do vestuário, as bandas de wafuu kei costumam escolher locais que remetem ao Japão pré-moderno para suas sessões fotográficas e videoclipes, privilegiando ambientes como florestas, templos e outros cenários antigos que evocam uma atmosfera pré-elétrica e profundamente ligada à tradição japonesa.

Os acessórios utilizados são igualmente emblemáticos e incluem objetos como leques sensu, máscaras hannya ou outras máscaras tradicionais do teatro Noh, guarda-chuvas wagasa e bonecos ichimatsu. Estes elementos são frequentemente incorporados não apenas em fotos e vídeos, mas também nas performances ao vivo, seja como parte da decoração do palco ou integrados às apresentações teatrais, enriquecendo a experiência visual e cultural do espetáculo.

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