Entrevista com Nana, manager na JaME Brasil

O fãs brasileiros estão vivendo um dos melhores momentos da música japonesa. Nos últimos anos, muitas bandas e artistas estão se apresentando não só em eventos de animes mas também em casas de shows nas grandes metrópoles. Isso se deve ao trabalho dos fãs e a divulgação do trabalho dos artistas do Japão.

A JaME (Japanese Music Entertainment) é um site de notícias mundial focado na música japonesa no ar desde 2004 e é um dos maiores portais sobre o assunto.

Na entrevista a seguir, conversamos com Nana, manager da JaME Brasil, colunista responsável por traduzir e trazer conteúdos sobre a música japonesa no Brasil. Nana conta com grande conhecimento na área da comunicação e quisemos trazer um pouco da sua experiência para cá.


Quando foi seu primeiro contato com a música japonesa?

Nana: Foi nos animes. Acho que a maioria dos fãs de jmusic de fora do Japão também começaram assim. No meu caso, foi especificamente por causa Rurouni Kenshin (Samurai X) que, na minha opinião, tem uma das melhores trilhas sonoras e com artistas incríveis. As duas primeiras bandas que fui procurar sobre na época foram L’Arc~en~Ciel e X JAPAN.


O que te despertou em trabalhar com o jornalismo focado em j-music? Há quanto tempo você atua nesse cenário?

Nana: Sempre gostei de jornalismo, então poder trabalhar com música japonesa, que é algo que eu amo, é um privilégio. Eu entrei no JaME em 2008, então faz um tempinho já… (risos)


Podemos considerar você como pioneira no jornalismo digital focado em jmusic no Brasil?

Nana: Jamais, várias pessoas já fizeram isso antes de mim. O JaME mesmo começou em 2004, eu só entrei em 2008 e já tinha várias pessoas trabalhando nisso. Eu entrei como tradutora e redatora na época.


Qual sua parte favorita no trabalho do jornalismo?

Nana: Adoro entrevistar artistas. Uma coisa é escrever sobre eles; outra é ouvir da boca deles como enxergam o próprio trabalho. Sempre surgem perspectivas que eu não tinha considerado, e quase toda entrevista me reserva alguma surpresa.


Qual foi seu primeiro show j-music? Como foi essa experiência na época?

Nana: Acho que foi o Charlotte. Não lembro de todos os detalhes, mas lembro do choque de finalmente ver uma banda visual kei aqui no Brasil.

Eu mesma nem conhecia na época, e acredito que muita gente também não. Mas havia uma sensação meio coletiva de que era importante apoiar, justamente para abrir caminho para que mais artistas viessem depois. No fim, acabei ouvindo bastante eles depois do show e até fui vê-los de novo quando eles vieram com o Toshi. E lembro também que o show era tão baratinho na época… (risos)


Qual foi o maior desafio que você passou em entrevistas com os artistas que passaram aqui no Brasil?

Nana: Foi a primeira vez que entrevistei o MIYAVI pessoalmente, em 2018, e nada daquilo estava nos planos. Eu estava na fila acompanhando alguns amigos quando alguém da produção me procurou e disse que ele me daria uma entrevista em dez minutos. Eu não tinha preparado perguntas, não tinha pensado em pauta, não tinha nada. Tive que montar uma entrevista inteira na hora. Minha sorte é que por ser fã dele e acompanhar o trabalho dele, isso ajudou demais. Pra piorar, foi uma das primeiras vezes que eu entrevistei um artista presencialmente. E não era qualquer artista: era o MIYAVI. Eu fiquei extremamente nervosa. Sabe quando o cérebro simplesmente para de funcionar? Eu sentia que não lembrava nem português, quanto mais inglês. Por sorte, eu estava com alguns amigos do Live Japan Plus naquela época. Eles me ajudaram muito e acabamos fazendo a entrevista juntos.


Qual é sua entrevista favorita?

Nana: Infelizmente, a minha entrevista favorita é uma que nunca saiu. (risos de nervoso)

Mas, entre as que foram publicadas, as mais marcantes para mim foram a que fiz com o YOSHIKI em 2023, por Zoom, e a do HYDE no Brasil no ano passado. Eles foram alguns dos primeiros artistas que conheci quando comecei a ouvir música japonesa, então poder entrevistá-los tantos anos depois foi meio que “zerar a vida”, sabe?

Mas eu também adoro entrevistar o MIYAVI. Toda vez é uma experiência diferente. Nunca sei exatamente para onde a conversa vai, e isso torna tudo muito divertido. Às vezes nem parece uma entrevista; parece que estou sentada em um bar batendo papo com ele. (risos)


Você sente a diferença ao entrevistar artistas mais velhos para os artistas mais novos? Há uma grande diferença entre as gerações de músicos no Japão?

Nana: Não exatamente. Cada entrevista é uma experiência diferente, porque cada artista tem seu próprio jeito de se comunicar. Alguns adoram conversar e desenvolvem bastante as respostas, enquanto outros são mais diretos e sucintos.

Talvez eu perceba que artistas mais novos costumam demonstrar mais empolgação ao falar sobre o próprio trabalho, até porque muitas vezes estão em uma fase de divulgação e querem compartilhar tudo o que estão fazendo. Mas isso está longe de ser uma regra. O MIYAVI, por exemplo, fala horrores. (risos)

No fim das contas, é justamente essa diferença de personalidades que torna as entrevistas tão interessantes. Você nunca sabe exatamente como a conversa vai acontecer até ela começar.


Você acha que o boom do k-pop ofuscou a música japonesa no Brasil? Ou isso é mais o reflexo do mercado japonês onde há pouco interesse no mercado internacional?

Acho que o mercado hoje está muito mais voltado para o k-pop por ser o que está em alta no momento, mas não vejo isso como algo que tenha “substituído” a música japonesa. Quem acompanha jmusic sabe bem como ainda é difícil ter acesso ao material de muitos artistas. Melhorou bastante em relação a dez anos atrás, claro, mas ainda assim grande parte do mercado não é tão aberta para o exterior.

Ao mesmo tempo, dá para ver como artistas japoneses que apostam em uma estratégia internacional, como ONE OK ROCK e XG, conseguem alcançar muito mais público e fazer bastante sucesso fora. Eu costumo dizer que, se a indústria japonesa tivesse um interesse maior em investir no mercado global, muitos artistas poderiam ter um alcance tão grande quanto o K-pop, especialmente no caso do J-pop. Mas, na prática, isso ainda não é prioridade.

Existem, sim, algumas empresas que investem mais nessa visibilidade internacional, como a LDH Japan, que trabalha com os grupos do EXILE TRIBE (como o WOLF HOWL HARMONY, que vem ao Anime Friends), mas ainda são exceções dentro do cenário. 


Do período que você está na JaME Brasil até hoje, você imaginava que o cenário da música japonesa, especialmente o Visual Kei, teria essa força que vemos hoje?

Eu diria que sim. O visual kei tem um potencial enorme de ganhar mais espaço fora do Japão principalmente pela estética e identidade forte que carrega. O que ainda falta, na minha visão, é uma abertura maior por parte das bandas e das empresas para o público internacional.

Coisas simples já fariam diferença, como disponibilizar mais músicas nas plataformas de streaming, liberar videoclipes completos no YouTube e facilitar o acesso ao catálogo. Isso já aproximaria muito mais o público.

Para mim, o grande diferencial está justamente no acesso: o quanto as pessoas conseguem se conectar com os artistas e com o trabalho deles de forma mais direta e contínua. Isso muda completamente o alcance.


Quais suas expectativas do cenário Visual Kei no Brasil nos próximos 5 anos?

Como eu disse antes, o visual kei tem muito potencial para crescer internacionalmente, mas isso depende bastante de como essas bandas e empresas vão se abrir para a promoção fora do Japão.

Hoje em dia, redes sociais como Instagram e TikTok são ferramentas poderosas de divulgação, principalmente para as novas gerações. Então, volto sempre ao mesmo ponto: quando o acesso ao material existe e os artistas estão visíveis, o alcance cresce naturalmente. É uma questão de presença mesmo.

Sendo bem sincera, não sei exatamente como isso vai se desenrolar no futuro, mas torço para que mais empresas aqui no Brasil também se interessem em trazer esses artistas. E, para isso acontecer, o papel dos fãs também é importante: pedir, mostrar interesse e movimentar as redes.

Às vezes sinto que a comunidade de jmusic no Brasil é mais contida, mais tranquila. Já o K-pop, por exemplo, é muito mais barulhento e isso é visível em como a presença deles é forte aqui. Não dá pra ignorar o impacto disso.

Então acho que, além de apoiar os artistas e pedir que eles venham nos posts deles, também é importante direcionar esse pedido às produtoras locais. É essa soma de forças que faz as coisas acontecerem.


Para finalizar nossa entrevista, o que mais te orgulha em todos esses anos trabalhando na JaME?

Ver a música japonesa voltando a ganhar mais visibilidade depois de tanto tempo dá um certo orgulho, principalmente de nunca ter parado de divulgar. Eu acabo fazendo isso quase como um hobby também, mesmo sendo parte do meu trabalho, porque acredito muito no potencial que esses artistas têm de alcançar outras partes do mundo.

Além disso, eu sei como é ser fã e não conseguir encontrar informações ou material sobre os artistas que você gosta. Então, saber que de alguma forma ajudo a diminuir essa barreira e facilitar esse acesso acaba sendo muito gratificante.


Agradecemos muito a Nana por nos ceder essa entrevista! Você pode acompanhar o trabalho dela na JaME no site oficial e nas redes sociais.


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